quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Festa de N.S. do Livramento 2010

Assim como acontece nos textos das memórias do Jeremias Corrêa, da postagem anterior, o ano em Iporanga começa e termina, com as festas durante a passagem do revelion, sendo que o ponto alto das festividades, acontece sempre no dia 31 de dezembro, com a Chegada da Santa, isto tudo, sempre marcado pelas chuvas intensas do verão.



Procissão - Chegada da Santa na rua Carlos Nunes.


No dia de finados, além da lembrança dos mortos, a chuva também é uma coisa certa, por isso, quando o padre marca missa para o cemitério, ele tem sempre um plano "B" alternativo combinado, para que, no caso de chover, a celebração fique automaticamente transferida para a igreja.
A chuva no último dia de dezembro, já foi observada antes da existência das festas de Nossa Senhora em Iporanga. O inglês Richard Francis Burton, em 31 de dezembro de 1865 já havia relatado em seu diário, a ocorrência de segundo ele, um dilúvio nos três dias no meio da passagem de ano. Tal fato provocou certas regras no andamento da cerimonia. Por exemplo existe uma ordem na posição dos andores para o início das procissões desde a chegada da barca até o dia da saída, São Benedito segue na frente, depois São José e por último o andor de Nossa Senhora, qualquer mudança neste sistema pode, conforme diziam os antigos, provocar um aumento muito grande nas chuvas e causar danos ao rio, ao meio ambiente e à vida dos habitantes.

Belo cartaz da festa feito pelo padre Eslawomir.


Existem realmente algumas histórias sobre a rotina da festa e o roteiro da barca, quantas voltas ela dá para fazer as manobras o local exato e até o lado para onde ela gira. Houve uma ocasião em 1985 que foi feito uma festa em abril para que se pudesse fazer um documentário, mesmo assim não foi possível de se evitar as chuvas. Neste mês completamos um ano da postagem feita sobre o evento no ano passado 2009. Aproveitei o gancho para mais uma vez falar sobre a festa, agora para 2010. Antes vou transcrever um histórico sobre a festa escrito pelo meu tio Jeremias e editado pelo nosso amigo Márcio Vieira e Marcelo Domingues da cidade de Tatuí e Sorocaba, que sabem tudo sobre Iporanga.

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Documentário produzido sobre a festa de Nossa
Senhora do Livramento em abril de 1985.



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Normalmente são publicadas muitas fotos ou vídeos da Chegada
da Santa, mas excepcionalmente este ano a TV Globo (Tribuna)
produziu esta reportagem da Despedida da Santa do ano 2011,
que eu adicionei nesta matéria, para complementar a postagem.

O texto original tem mais de vinte anos, com o título de "A IMAGEM DE NOSSA SENHORA DO LIVRAMENTO A CHEGADA DA BARCA E SUAS ORIGENS". Sobre a barca, de acordo com a opinião do padre João Gomes achou-se por bem dizer barca ao invés de balsa, como se usava dizer através dos tempos, por isso no texto anterior estava escrito balsa e eu substituí por barca começando pelo título. A história reeditada abaixo, começa assim:

Em 1960, me foi narrado pelo saudoso José Desidério, antigo morador da cercania de Iporanga, nascido e criado no bairro do Isídio, a História da Imagem Milagrosa de Nossa Senhora do Livramento e a Chegada da Barca na barra do Ribeirão Iporanga.
A Imagem de Nossa Senhora do Livramento, chegou em Iporanga em 1878, ainda com os primeiros habitantes fundadores daquele que seria o novo povoado de Iporanga, pois a antiga vila localizava-se a uma légua da atual, no sentido ribeirão acima.
A bela imagem foi doada a uma velha senhora de nome Maria, que morava às margens do rio Ribeira, no bairro Isídio. Sendo a velha Maria muito devota de Nossa Senhora, ao mesmo tempo em que vários milagres ocorridos, foram atribuídos à Santa, rapidamente o nome de Nossa Senhora do Livramento,
da imagem milagrosa, ficou conhecida em todas a região e até em lugares mais distantes. Assim sendo a velha Maria, que era muito religiosa, resolveu fazer uma capela no bairro do Isídio em homenagem à Santa e daquela data em diante ela vinha em romaria para a cidade de Iporanga, todos os anos, no último dia de dezembro, com a canoa enfeitada e acompanhada por outras embarcações e sempre a tarde, as 18:00 horas, aportava na barra do Ribeirão Iporanga.
Com o passar dos anos a romaria foi crescendo e os milagres acontecendo. O aumento da população e também o interesse do povo, que sempre foi muito católico e devoto de Nossa senhora, explicam o sucesso alcançado pelo evento.

O Fidalgo Carlos Diogo Nunes
.

No ano de 1890, chegou a Iporanga o Fidalgo, Sr. Carlos Diogo Nunes, o qual se encantou com a romaria, que, valendo-se de seus conhecimentos em embarcação naval, resolveu criar a barca imitando um pequeno navio, com o nome Estrela do Mar, nas cores azul e branco, iguais a da igreja, para transportar a Santa pelo Ribeira.

A barca era composta por três grandes canoas, separadas uma da outra, por um metro de distância, sendo amarradas com cipós pretos de imbé ou timbopéva, extraídos da Mata Atlântica, tarefa executada por grupo de voluntários da comunidade, três dias antes de começar a construção da barca. Geralmente são os mesmos que fazem este trabalho todos os anos, sempre envolvendo pessoas para cozinhar, remar e entrar na mata. Isso tudo gera despesas com pessoas, comida, provisões, cachaça, para até três dias, uma vez que a cada ano o cipó vai ficando mais distante, na direção do centro da mata.

Chegada da San
ta no Porto do Ribeirão.

Por isso, para conter esses gastos, além das dificuldades, riscos, e problemas ambientais, de uns tempos para cá o cipó preto passou a ser substituído por uma corda preta, semelhante ao material original. As canoas, eram talhadas em madeira, não sendo utilizado prego algum na sua confecção, e a barca era emoldurada por tecidos nas cores azul e branco.
Era possível transportar nesta embarcação mais de 50 pessoas, entre devotos, romeiros, padres e banda de música. A festa é considerada a mais bonita de todo o Vale do Ribeira, recebendo romeiros da região e dos lugares mais remotos. Durante quase um século e meio, esta milagrosa imagem sobe e desce o rio Ribeira de Iguape, abençoando a todos os devotos e romeiros.
Segundo o que sabia Honório Corrêa, que em 1900 estava em Iporanga aprendendo as primeiras letras na escola particular de seu padrinho o negro, ex-miliciano Amâncio Felix Valoes, 1901, foi o único ano em que a referida imagem deixou de visitar o encontro das águas na Barra do Ribeirão Iporanga, devido a uma grande enchente, que assolou a cidade de Iporanga naquele ano.

A Barca navegand
o nas águas do Ribeira.

Ainda hoje a barca continua navegando as águas do majestoso Ribeira, trazendo consigo não só fé e a Imagem da Santa, mas também arrastando junto um grande número de mini réplicas da barca, barcos a motor, canoas e boiacross, que às 18:00 horas da tarde de 31 de dezembro, são recebidos por uma grande queima de fogos e uma imensa multidão, que se acotovela e aguarda, no porto da Barra do Ribeirão Iporanga. Após as palavras do Bispo da Diocese, a banda segue com a procissão tocando a mesma música "Salve oh Mãe!" que toca dentro da barca. O andor de São Benedito segue na frente acompanhado pelos andores de São José e Nossa Senhora, até a igreja matriz, pela rua Carlos Nunes, que antigamente era toda enfeitada com palmeiras jussara e bandeirinhas, desde o porto até a igreja.
O mastro da barca, era mais alto antigamente, mas por motivos óbvios foi cortado após a construção da ponte sobre o Ribeira. A balsa passou por uma renovação na festa do Sr. Jeremias de Oliveira Franco, em 1961, quando o Sr. Luiz Nestlhener projetou e construiu o novo modelo, que permanece até hoje. A imagem fica na igreja durante a festa até 2 de janeiro, dia de sua despedida, quando em procissão retorna ao Porto do Ribeirão Iporanga, para em sua despedida esplendorosa, novamente subir o rio Ribeira, deixando para trás o povo acenando com mãos e lenços, num ambiente místico de bençãos, esperança, graças e muita paz.



A Varação
A partir do mês de outubro de 2010, a Comunidade Católica da Paróquia de Santana, com o padre, a Secretária da Educação e a Cultura do município, inclusive o prefeito Gulu, reuniram-se, mais de uma vez para discutir, e até antecipar os procedimentos para realização da grande festa da Chegada da Santa na passagem para o ano novo. A estas alturas já estava resolvido o problema da construção do barracão para guardar materiais da barca, e as canoas que seriam feitas para a montagem da barca já que o antigo barracão que estava sobre o controle da prefeitura e foi incorporado por terceiros, que por motivos de professar outra religião, ou qualquer outro motivo, não permitiram, que as canoas permanecessem mais guardadas naquele local.
Ficou decidido que a festa e o bingo também estariam concentrados ao lado da igreja matriz, na rua Marechal Deodoro da Fonseca, em frente ao estabelecimento do João Batista, onde seria montado a cobertura e o palco para a festa, o bingo, o show e a missa. Os cartazes que fizemos com a colaboração do meu amigo Miguel, no ano passado, neste ano foi assumido pelo padre, que produziu por sua conta um ótimo cartaz, pena que este ano não tenham repetido a divulgação e colagem, que eu e o Gordo Mendes fizemos em todas as igrejas de serra acima, desde Itaoca, Adrianópolis, Ribeira até Ribeirão Branco,Guapiara e voltando por Barra do Chapéu e Apiaí. No ano passado esta tarefa foi feita com o veículo e combustível da paróquia, este ano ainda não houve interesse de alguém que pudesse colaborar com esta divulgação, o que é uma pena pois os cartazes enviados pelo correio nesta época nem sempre chegam a tempo em seu destino, e quando chegam demoram-se muito nas gavetas, de onde geralmente nunca saem. Nesta reunião também ficou claro por parte do Sr. João Batista, que ele responsável por um projeto, e de posse de um pequeno recurso do governo, para fabricação das canoas para a barca, imediadatamnte partiria para execução do projeto. De todos os itens discutidos na preparação da festa, até agora, este foi o que alcançou maior êxito. O João percorreu as matas em busca da madeira ideal, para fazer duas boas e novas canoas. Depois de vários dias de uma busca incansável, chegou a um acordo com o quilombo de São Pedro e Ivapurunduva, para a escolha da madeira e local ideal para entalhar e fazer a varação das canoas, dentro daquelas áreas.

Fotos do Eurico: pela data ainda não teve varação.

A articulação, o trabalho dos mestres canoeiro, que acamparam na mata, para fazer o trabalho e a preparação, a promoção do evento da varação e a adesão de muitos membros das comunidades de Iporanga, dos quilombos e da igreja duraram vários dias, até que finalmente chegou o grande dia. Eu imaginei que: de certo, eu não iria, pois esta aventura, além de dura e perigosa, exige um vigor físico não muito presente, na plenitude, de um quase sexagenário, assim como eu. Convites para a empreitada não faltaram, fui dormir na véspera daquela data e imaginei, que para tudo correr bem, para eles, o tempo tinha que estar bom, mas na passagem da noite para a madrugada deitado no conforto, que cada um só encontra na própria cama e no próprio travesseiro, ouvi o barulho da chuva caindo deliciosamente no meu telhado, virei para o lado e em voz alta pensei:-- Vou dormir de novo que beleza! E continuei pensando:-- Eu não ia mesmo na varação e acho que com essa chuva, não haverá mesmo varação nenhuma.

Eu e o Zé Nunes em uma foto do Eurico.

Em pouco tempo a chuva parou, e por volta das cinco horas ouvi o estouro de um rojão cabeça de macaco, daqueles treme chão, que o pessoal gosta de estourar na política e que também o Shiro adora acender, quando o Corintians perde, ou o São Paulo vence, para descontar um pouco das gozações vinda dos corintianos. O estouro era um sinal para avisar o pessoal envolvido na varação, que era hora de arregaçar as mangas e partir para a jornada, a primeira bomba era para chamar as cozinheiras e as outras eram para o restante do pessoal, foram bombas de 10 em 10 minutos até as 8 horas da manhã. Geralmente as pessoas da minha idade tem o péssimo costume de levantar cedo demais, até aos sábados e ficar atrapalhando o sono dos mais jovens, por isso resolvi descer até a rua para olhar o movimento do pessoal, achava que todos já tinham partido para o quilombo, mas para minha surpresa ainda haviam alguns retardatários, entre eles o Branco e o KaKá, que me convidaram e insistiram, para ir com eles e me garantiram lugar no carro. Pensei um pouco e resolvi logo. Eu vou! Deixo o meu carro em casa e sigo com vocês. Eles foram até a casa do Branco, depois me encontraram no "Fast Food and Drinks", do Doni para depois seguirmos viagem. Encontramos o João Batista voltando para providenciar o almoço, conversamos com ele, que nos incluiu os três, numa lista que já passava de 150 almoços. Seguimos de carro até o antigo acampamento do CPRM próximo do Galvão e de lá seguimos a pé até onde estavam as canoas a espera da varação. Não havia oficialmente nem uma gota de cachaça em poder do pessoal, embora estivessem presentes todos os pingaiadas e os maiores bebedores da freguesia. O João e todos acham, que bebida antes ou no meio da tarefa atrapalha e provoca acidente. É certo que havia lá no meio de toda aquela gente, um ou outro tubo de álcool disfarçado, mas em quantidade insignificante e insuficiente para causar algum dano à missão.

O vídeo varação 01, abaixo mostra o Eurico fazendo esta foto.

No local da largada, depois de muitos fogos, o velho mestre chamou a todos inclusive o padre e os crentes para rezar o Pai Nosso. Depois acompanhados de um ruidoso grito de guerra e amarradas com cordas e seguras pelas mãos da maioria dos quase 180 homens, deslizaram-se e arrastaram-se as canoas por entre as árvores trilhas e riachos, numa explosão de energia e animação, raramente vistos.

Vídeo da Varação 01

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Vídeo da Varação 02
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Dona Jovita *16/08/1926 +10/12/2010

Estava complementando esta postagem que comecei este mês sobre a festa, quando ainda de manhã fui surpreendido pela notícia de que Dona Jovita havia falecido nesta sexta feira,10/12/10, às 6:30 horas. Apesar de estarmos informados que seu estado era bastante delicado e de tratamento difícil, e que era um mal traiçoeiro, ainda tínhamos esperança de sua recuperação, mas infelizmente, para ela e todos nós, não foi possível vencer a doença ou contrariar o designo de Deus. Dona Jovita era viúva do Sr. Nascimento Sátiro da Silva. Ela muito religiosa, partiu desta vida, numa sexta feira como profetizava a devoção de que todo aquele que cumpre a novena das nove sexta feira, como ela e o Sr. Nascimento cumpriram, teriam sempre a sexta feira como seu último dia. Porém Sr. Nascimento no leito de morte teve um sonho de que uma mulher vestida de branco, segundo ele, talvez fosse Nossa Senhora, disse-lhe que embora ele tivesse feito a novena ele partiria no sábado, por que era o dia do Senhor. E foi o que aconteceu, Nascimento faleceu em um sábado. Dona Jovita tinha muita devoção pela Virgem Santíssima e uma paixão declarada pelas tradições pela banda de música, da qual era madrinha e pela festa de Nossa Senhora do Livramento. Sobre Dona Jovita, um visitante que esteve em Iporanga a alguns anos atrás escreveu:

--Dona Jovita - uma senhora que se parece com uma daquelas matronas bolivianas ou peruanas - matriarca da família que nos acolheu da maneira mais doce e gentil possível, nos oferecendo uma casa maravilhosa para ficarmos e refeições fartas e deliciosas ( até a abobrinha cozida que só minha mãe sabia fazer pude reencontrar aqui), sentou-se conosco à mesa prá nos contar uma deliciosa história: primeiro nos perguntou sobre São Paulo, com ares de certa nostalgia; depois nos contou que visitou a capital pela primeira vez em 1948, quando foi de bonde até Santo Amaro, e que entre 1962 e 1967 lá morou, nos Campos Elíseos, quando foi nomeada para trabalhar numa escola. Gostava da cidade, mas não era muito feliz, pois o marido e a mãe não quiseram se mudar e permaneceram em Iporanga. Essa ausência a angustiava e o pedido de remoção era um processo lento e burocrático, mas certa tarde, ao passar em frente ao Palácio do Governo - que na época era nos Campos Elíseos - mesmo bairro onde ela residia - sentiu-se, de forma quase mística, compelida a procurar o governador. Olhou para os guardas e, provavelmente conduzida pelo anjo da guarda de Iporanga, avançou por portas e portas, sem que ninguém a detivesse ou interrogasse, até chegar a uma que abriu cuidadosamente e viu, atrás de uma mesa enorme, o governador Adhemar de Barros, que a olhou como se já a esperasse e pediu-lhe que entrasse, ouviu sua história, o seu pedido angustiado, e ligou para o Secretário da Educação, escreveu um bilhete de próprios punho, que ela levou na Secretaria da Educação, o Secretário leu ligou para o setor de publicações e dois dias depois, soube por colegas funcionários da escola, que leram o Diário Oficial, que ela, Dona Jovita, os estava deixando numa remoção para Iporanga. Apesar do lamento dos demais funcionários, da escola, de São Paulo, em poucos dias ela estava de volta a Iporanga, de onde nunca mais saiu.
Entrevista na TV-2009
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O videoclipe acima em uma entrevista com a Rosana Valle, da TV Tribuna, é uma singela homenagem e agradável lembrança da Dona Jovita, que mesmo ausente, do nosso meio, continuará sendo para nós, uma das nossas maiores referências.

domingo, 14 de novembro de 2010

Iporanga memórias
(Jeremias Corrêa)
1952-1965









Esquina da loja do Sr. Celso Descio e casa do Nhô Athos dos Santos, na extremidade da calçada D.Iracema Nunes, na escada de pedra estão: Sr.Gentil e Sr.Clidinho de Nhá Bigota.

Antigo título eleitoral do Nhô Athos dos Santos Lisboa.





Acima estão: Sr.Luiz Nestlhener, ao seu lado

sua filha Elizabeth e o avô dela, e pai dele;
o centenário Chico Alemão , Sr. Francisco
Nestlhener, aqui sem o inseparável cachimbo.








Esta postagem é continuação das anteriores "Memórias de um Caboclo de Iporanga" e "Memórias de Iporanga"(Jeremias Corrêa) 1940-1951, a divisão em partes foi necessária para que o arquivo não ficasse grande demais, dificultando o acesso. "Memórias de Iporanga"(Jeremias Corrêa) 1952-1965, aparece aqui na frente por um critério de apresentação do blog, colocando primeiro sempre as publicações mais recentes e empurrando para trás, as mais antigas. Portanto as vezes, pode dar a impressão que as histórias são apresentadas de trás para frente, embora não sejam. Para entender melhor e pegar uma melhor sequência dos textos é aconselhável primeiro ler as postagens anteriores começando pela mais antiga das três. Isto, se você ainda não leu... É claro!


1952

Entramos para o dia primeiro de janeiro de 1952 com a missa solene cantada á meia noite, desta vez, com o que restou do maravilhoso coro da igreja matriz, entoando o canto em latim, o "Kyrie Eleison" ajudado pelos seminaristas de São Vicente, que estavam presentes na festa. Para coroar o fechamento monumental da festa com o coro e todos os fiéis cantaram a tradicional música da Igreja Católica: “Cristo vence, Cristo reina”. Os companheiros do Chico Cardoso, todos já preparavam-se para a posse da prefeitura no fim de janeiro. Quando o Sr. Cardoso assumiu,foi exonerado do cargo de fiscal da prefeitura o Sr. José de Andrade (Juca Pedra), filho do Sr. Quitino de Andrade. Tomava posse na Câmara Municipal de Iporanga Dona. Leonor Nestlhener, esposa do Sr. Luiz Nestlhener (Luiz alemão), espeleólogo, historiador e mestre de marcenaria, homem muito dedicado a todo nosso município. Dona Leonor, se não foi a primeira, foi uma das primeiras mulheres a ser eleita vereadora no interior do Estado de São Paulo. Com a posse do Sr. Cardoso, o Sr. Nascimento Sátiro da Silva passaria a ser o novo secretário do prefeito, sendo exonerado o Sr. Carlos Becker.
O Sr. Antonio da Rosa (Totó Borges) passou a ser o fiscal de rua, para prisões de animais que fossem encontrados soltos nas ruas. Foi nomeado para serviços de água o Sr. Perciliano Santos (Bichinho), serviço muito bem feito por ele, inclusive conservando muito bem roçado o caminho que levava à captação de água do corregozinho que vinha de além da Serra Grande.
Chefe de Gabinete Carlos Becker
Durante os meses de janeiro e fevereiro, pude presenciar uma cena marcante, às oito horas daquela linda manhã. O nosso amigo, o Célio de Oliveira Santos descia em sua canoa do fundo de sua casa no porto do Ribeira. Ele remava a canoa, já na altura da ponta da pedra com seu cachorro amarelo na frente da canoa, eu e o pai do Célio, Sr. José dos Santos Lisboa, estávamos quase ali na ponta da pedra e saudamos o rapaz com um olhar de alegria, o Célio continuou remando, a essa altura já cruzava a mansa barra do rio Iporanga e sobre o olhar satisfeito do seu pai portava sua canoa, já do outro lado desembarcando ali; ele e o cachorro.

Missa em latim, sacristão Luiz Bugre e Pe. Arnaldo da Costa Caiaffa.

Durante o carnaval de 1952 morria atropelado ao lado da igreja matriz o nosso amigo e companheiro Benedito da Rosa (Dito Totó). Foi um momento de grande tristeza para todos nós, foi o primeiro atropelamento nas ruas de Iporanga. O pobre menino foi atropelado e morto pelo caminhão do Niquinho, filho do Sr. Ulisses Santos. Já era noite, quando o menino brincava na rua. Avisaram o Sr. Antonio da Rosa (Totó Borges), pai do menino, que ficou muito nervoso, pegou sua foice e veio furioso para a rua, chegando na praça da matriz o pobre homem não encontrou mais ninguém, somente encontrou as ruas desertas, as casas todas fechadas e o velho caminhão na praça. Totó Borges, enfurecido, quebrou todo o velho caminhão com a foice, pois o Niquinho o proprietário fugiu. Os policias não conseguiram desarmar o Sr. Antonio da Rosa (Totó Borges), que por sinal, parecia ter toda a razão. A muito custo o pobre homem entregou a foice para o padre Caiaffa, Totó era muito religioso e atendeu ao pároco. A população ficou muito triste com aquela tragédia ocorrida na rua. Para nós foi uma grande perda, pois aquele menino era muito bom e estava na flor da idade.

O ano de 1952 foi um dos anos das Santas Missões em Iporanga, foi também a última vez que vieram aqui, em visita pastoral, o bispo da Diocese de Santos, Dom Idílio José Soares. O bispo chegou aqui duas semanas depois do frades capuchinhos, que eram em número de dois. Chegaram para preparar o povo católico para o crisma das crianças. Daquela vez o grande cruzeiro de madeira feito pelo
Sr. Francisco Nestlhener (Chico Alemão), pai do Luiz Nestlhner (Luiz Alemão). a cruz foi erguida naquele morrinho em frente à antiga casa paroquial, como lembrança das Santas Missões, depois fizeram uma bela procissão de despedida.
O serviço de alto falante, A voz de Iporanga, passou para o comando de Pedro Mendes dos Santos (Nhô Mendes) e professor Aurélio Rosa de Moraes e transmitia dos estúdios dos fundos da prefeitura em frente à igreja matriz. As músicas mais tocadas pelo serviço de alto falante eram: “Bailão caçula”, “Tornei-me um ébrio” com Vicente Celestino, a valsa “Saudades de Iguape”, “Saudades de Petrópolis”, “Saudades de Ouro Preto”, etc.. Também eram tocadas muitas músicas caipiras, belos boleros, tangos e sambas canção. Os noticiários mais ouvidos na nossa pequena cidade eram: “O Matutino Tupi” e o “Grande Jornal Falado Tupi” com os locutores Corifeu de Azevedo Marques, Maurício Loureiro Gama e Homero Silva. Eram também muito ouvidos aqui os noticiários da Rádio Bandeirantes e também os programas caipiras da mesma emissora como: “Onde canta o sabiá” e “Na Serra da Manteigueira”, eram ainda muito ouvidas as estações de rádio: “Aparecida”, “Rádio 9 de Julho”, “Jornal do Brasil”, “Guaira de Curitiba”, “Nacional de São Paulo” e “Nacional do Rio”.

Naquele ano a loja do meu pai, na rua Pedro Silva, nº 42, já havia crescido, aumentando um pouco mais o estoque de tecidos, lá reuniam-se muitos amigos para contar suas histórias engraçadas. Havia lá um grande caixote onde aqueles amigos sentavam-se para contar histórias de todo jeito, sempre acompanhado de grandes gargalhadas e muita alegria. Os maiores contadores de histórias ali com meu pai, eram o sargento Cirino e o Sr. José Rodrigues, nós ainda crianças, ficávamos com a barriga doendo de tanto rir de tantas histórias engraçadas contadas por aqueles senhores, que hoje já não se encontram no meio de nós.
No ano de 1952 não houve eleição e a população esteve bastante calma, sem muita intriga de políticos. Foi exonerado do cargo de delegado, o sargento Cirino e nomeado no seu lugar para aquele cargo, o Sr. Antonio Alves de Albuquerque (Antonio Evaristo).
A estrada de rodagem Iporanga-Barra do Turvo em construção, já estava do outro lado da Serra das Andorinhas. O presidente da Câmara Municipal na época, o Sr. Benedito de Andrade Resende (Senfim), que acabara de mudar-se do bairro Lageado, onde residia, para morar em nossa cidade.

Meu padrinho, Redocino de Moura (irmão do João do Chumbo) ainda forte, chegava sempre até nossa casa montado no seu cavalo preto todo enfeitado de argolas e medalhas metálicas, ele andava sempre bem vestido, calçado de botas sanfonadas, lenço vermelho no pescoço e chapéu de pano de aba larga na cabeça. Me lembro que ao cumprimentar meu padrinho ele pegava sua carteira no bolso e sempre me dava uma nota de vinte cruzeiros, que eu agradecia e saia satisfeito.
Celina Silva, filha do Sr. Celso Silva.

Já o meu outro padrinho, o Celso Silva, meio acabrunhado, chegava na manhã de 10 de dezembro à loja do meu pai na rua Pedro Silva nº 42, o dia estava meio chuvoso, lembro-me que ele chegou de terno branco de brim, chapéu de feltro marrom na cabeça e calçado de galocha, comprimentado meu pai, entregando em seguida uma carta a ser entregue para o Sr. Sebastião Fernandes, no Bairro Caboclos, pelo primeiro portador que fosse para lá,( Carta para Sebastião Fernandes, homem mulato alto muito forte, tinha um grande bodoque feito de cerne da espinhenta brejauva, a palmeira mais dura e forte que existe, cuja madeira de tão dura, era utilizada pelos índios para fazer ponta de flecha. Ele usava o bodoque para caçar macacos, era um arco tão duro de armar, que dois homens comuns não conseguiam arma-lo, o mulatão, tinha ótima pontaria, quando ia sair para a caça, fazia três pelotes de cerâmica e colocava para assar no forno até ficar vermelho. Em um bando de macacos ele atingia só um dos animais, só quando este, antes de cair ficava preso no galho pelo rabo é que, o segundo pelote era usado para atingir a calda do primata. Sebastião Fernandes, segundo Honório Corrêa, era seu amigo de infância e talvez parente distante, dizia que o rapaz atirava um pedaço de pau ou uma pedra para arrancar broto das embauveiras mais altas. Tinha força para arremessar objetos para o outro lado do Ribeira, que cortavam o ar, num ronco meio assobiado como um obus e mesmo quando atirava um sapo, que voava assobiando com os braços abertos até aterrizar na outra margem do Ribeira. Sebastião tinha duas esposas, a primeira, a mais antiga era a mulatona Virgilina e a segunda, que conheceu depois e entrou na sociedade era Maria Ruiva, jovem e bonita, por ser muito amigo do Honório Corrêa, vinha quase todo fim de semana dormir na sala da casa da rua Pedro Silva. Um dia ele estava deitado na esteira entre as duas mulheres e os filhos, quando de repente chegou alguém dizendo que mataram um soldado lá na praça da matriz. Sebastião ficou exaltado e disse:-- Isto não pode ficar assim deixa que eu vou lá agora dar um jeito nesta situação, e fez menção de levantar-se, mas foi arrebatado pelas mulheres, que diziam: -- Não Tião, pense em nós, suas mulheres e nos nossos filhos. Ele insistia:-- Não! isso não pode ficar assim, não me segura que eu vou! E elas: Não! Não vá! E ele ah! Eu vou! Vou sim! e Elas:--Não Tião, não vá!, Você não pode ir! E o Honório Corrêa se desmanchava de rir, diante daquela comédia muito engraçada). o meu padrinho Celso, abriu a carta e a leu para meu pai em voz alta, na carta ele pedia para que o Sebastião Fernandes viesse até Iporanga busca-lo a cavalo para que ele fosse passar alguns dias em Caboclos, que era seu sonho. Meu padrinho Celso Silva morreu sem nunca mais ter ido até aquele bairro de Iporanga, ele foi o primeiro guarda governamental de cavernas do município de Iporanga. Naquele ano o meu padrinho já andava a passos curtos e lentos, morava em sua casa na chácara, última da Coronel Neves, junto à igreja S. Benedito.

Porto do Ribeirão, Chegada da Santa com a banda Lira Iporanguense, nos anos 80, João Manoel e o seu baixo, Benjamim dos Santos e sua requinta.

Com as festas de fim de ano, terminava para nós o ano de 1952, com o Sr. José dos Santos Lisboa, homem alto e forte, de excelente carater, com terno preto e suspensórios de couro,e na cabeça, chapéu prada, orgulhosamente tocando , como já não se faz; pela última vez, o baixo da gloriosa Lira Iporanguense...quanta saudade!!...

Na foto ao lado vemos sobre o belo cenário
do encontro do ribeirão Iporanga e o Ribeira
de Iguape, a esquerda o ilustre e honrado
cidadão Lisboa (José dos Santos Lisboa),
o famoso Fequinho (Rafael Descio, o neto)
e o Sr. Lyan.






1953

Professora Maria Aparecida Grillo anos 50/60.

Passado o carnaval, voltamos á escola quase no fim do mês de fevereiro, para cursarmos o 4º ano primário, em uma velha casa que tinha suas janelas para o lado do Ribeirão, próximo ao escadão de pedras, nossa professora substituta era Dona Neide Aparecida Leite, por sinal excelente professora, nossa diretora era Dona Mercedes Soares, que havia se casado com o Dr. Djalma Descio e passou a chamar-se Mercedes Soares Descio. A diretora Dona Mercedes havia sido nossa querida e amável professora, quem nós devemos uma enorme gratidão e de quem jamais esqueceremos.
D.Edite, esposa do Ito.
Em 1953, houve uma grande festa de páscoa em Iporanga, após uma grande reforma na matriz, solicitada pelo padre Caiaffa ao excelente mestre de marcenaria o Sr. Luiz Nestlhener, que executou muito bem aquele serviço. Naquele ano o padre Caiaffa, que sempre gostou de fazer com perfeição belas e organizadas procissões, promoveu uma grande procissão na Semana Santa e como sempre com o Sr. Joaquim Ursulino da Cruz seguindo na frente da ala das crianças carregando a cruz de metal, com o maior respeito. Vale também lembrar neste capítulo que apesar de não ser um assíduo frequentador dos cultos religiosos.

Ito Nestlhener a esposa e uma amiga, no Porto do Ribeirão.

O Sr. Luiz Nestlhener, prestou inúmeros e relevantes serviços, sempre com muito carinho para a comunidade e a igreja de Iporanga, cidade que amou e para quem deu os filhos maravilhosos: Walter, Willy, Toninho, Ito, Elizabeth e Suco. O Luiz Alemão, foi como pessoa um exemplo de vida digna e honrada e para nós ficou a certeza de que ele, já tem seu lugar garantido nos céus.

Em maio, mês de Maria, tivemos durante os trinta dias, rezas do santo terço, sempre acompanhado pelo coro da igreja. Depois das festas juninas, preparavamos para as festas de final julho e também para o início das aulas no começo de agosto. Antes do dia 20 de julho, os bandeireiros já haviam chegado, também os foliões que percorriam os bairros no setor rural com a finalidade de angariar recursos e arrecadar prendas, ou donativos para as festas da padroeira Santana e do Divino.

Até o ano de 1953, nós tínhamos ainda alguns engenhos de rapadura, mas as tropas de burros de Ribeirão Branco já não chegavam mais por aqui para transportar carga.


Professor Aparício anos 30.

No começo de agosto chegava por aqui o professor Newton Albuquerque para nos dar aulas, substituindo nossa professora dona Neide, era um professor muito sério, muito patriota e muito boa pessoa, a população sentiu quando ele se despediu e foi embora.

Grupo Escolar de Iporanga,
inaugurado pelo Sr.Garcez.


Ainda no mês de agosto esteve entre nós o governador de estado, professor Lucas Garcez, que veio aqui inaugurar o nosso grupo escolar. Na frente do edifício ele improvisou um discurso falando também o deputado Diógenes Ribeiro de Lima, respeitável tribuno e grande amigo do nosso município. O governador ficou admirado com a grande figueira que existia e existe, ainda hoje, nos fundos do prédio.

Sipriano e o bebe Pedro Henriques Corrêa.


Houve um momento, que o prefeito Celso Descio, nos anos 50, mandou o Sipriano Morato Furquim, cortar aquela árvore, mas depois de bater com o machado por alguns minutos, Sipriano desistiu por causa do calor forte e da dureza da tarefa, ele contentou-se em apenas podar alguns galhos. Hoje, Iporanga e a natureza agradecem. O grupo escolar era onde hoje funciona a saúde em Iporanga, ao lado do quartel da polícia militar, no começo da avenida Iporanga.
A figueira, depois de mais de meio século.
Gov. Lucas Garcez
Depois daquele inflamado discurso o governador despediu-se para ir embora. Ainda antes de ir embora, o professor Garcez foi abordado por uma mulher,a beata Dona Maria Adriana, que era presidente da Irmandade do Sagrado Coração de Jesus, ela o convidou para visitar nossa igreja matriz, o governador atendeu ao convite, achou muito bonita a igreja com aquela pintura barroca por dentro e gostou também daquela torre com todas aquelas pontas e sinos. Ele, como o Adhemar, prometeram voltar novamente à Iporanga, mas nunca mais voltaram.

Em 1953, era operador do motor da luz o Sr. José Marques da Silva, ele tomou posse naquele serviço junto com o prefeito, Sr. Chico Cardoso. Nos anos que o Sr. Chico Cardoso foi prefeito de Iporanga, a prefeitura só tinha um caminhão da marca Nach e também um Jeep Nissan. Naqueles tempos o prefeito não tinha automóvel para viagens.
Assim foi 1953, ano em que recebemos também os primeiros diplomas do 4º ano primário das mãos do extraordinário padre Arnaldo da Costa Caiaffa e da nossa querida e bondosa diretora, Dona Mercedes Soares Descio, que também foi nossa respeitada e amada professora.


No ano de 1953, Flauzina Corrêa na imagem ao lado, já era mãe de dois filhos: à esquerda da foto, o Adauto que era afilhado de D. Mercedes Soares Descio e à direita o Alberto.






1954




No ano de 1954 , logo que passou a festa, começou na cidade uma grande agitação em torno da política. Os rios estavam bastante cheios e perigosos. Também o carnaval estava quente em Iporanga como em todo o país. As músicas mais ouvidas no rádio e na boca da população eram:"As águas vão rolar", "Foi pensando em você" com Carmem Costa, "A água lava, lava tudo", entre outras músicas e também muitos dobrados do 4º centenário da cidade de São Paulo.

Professor Newton Albuquerque anos 50.

Nosso professor Newton Albuquerque estava para deixar Iporanga, antes porém, ele foi de casa em casa, rua por rua, para despedir-se de cada pessoa da cidade, aquele mestre deixou boa lembranças entre nós.

Dona Mercedes e Dona Carolina também fizeram suas despedidas e foram embora da cidade, o que eu sei é que eles nunca mais voltaram.
1954 era ano eleitoral, com eleições para governadores e deputados. O candidato a governador por São Paulo, apoiado por Iporanga, que históricamente sempre vota no candidato perdedor, naquela vez não foi diferente, apoiou o Dr. Adhemar Pereira de Barros, presidente do P.S.P.(Partido Social Progressista), apoiado aqui pelo Sr. Benedito de Andrade Resende (Senfim)o candidato a vice-governador pelo P.S.P. era o sr. Erlindo Salzano.
Adhemar de Barros
Outro candidato a governador era o Sr. Jânio da Silva Quadros, candidato do P.S.B. (Partido Socialista Brasileiro) e o vice o coronel Porfírio da Paz, que foram os felizardos eleitos, apesar de aqui não terem obtido nenhum apoio, naquela eleição.
Jânio Quadros
O Jânio Quadro teve unicamente 2 votinhos. Também eram candidatos Francisco Prestes Maia do P.S.D. (Partido Social Democrático), tendo como vice o Sr. Antonio Silva Cunha Bueno, apoiados na cidade pelos Santos.
Toledo Piza
O terceiro candidato naquele pleito para governador, foi o Sr. Wladimir de Toledo Piza, candidato do P.V. (Panela Vazia), que nenhum voto obteve. Aquela eleição foi muito tumultuada, com muitas brigas e o clima esteve sempre muito quente.
O Sr. Benedito de Andrade Resende (Senfim), nesta época tinha um potente serviço de alto-falante em Iporanga, era equipado com duas cornetas que funcionavam a todo vapor. O glorioso hino do P.S.P. era o que mais tocava naqueles falantes.

Hino do Adhemar

“Quem não conhece?
Quem nunca ouviu falar?
Na famosa ‘caixinha’ do Adhemar.
Que deu livros, deu remédios, deu estradas.
Que se comenta de norte a sul.
Com Adhemar está tudo azul.”


Hino do Jânio


Varre, varre, varre, varre vassourinha!

Varre, varre a bandalheira!

Que o povo já 'tá cansado

De sofrer dessa maneira

Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado!

Jânio Quadros é a certeza de um Brasil, moralizado!

Alerta, meu irmão!

Vassoura, conterrâneo!

Vamos vencer com Jânio!


Hino do Garcez quando ele foi candidato a governador.

"Presidente Getulio, Adhemar senador,

e Lucas Garcez, prá governador é PTB é PSP,

os dois estando juntos nós vamos vencer."

(Estes Jingles das velhas políticas podem ser encontrados e ouvidos facilmente no You Tube)



O estúdio estava instalado no antigo e majestoso sobrado dos Lima, na esquina da rua Pedro Silva com a Benjamim Constant. Daquele local em algumas noites saiam discursos inflamados, que muitas vezes eram duros ataques aos adversários políticos. O serviço de alto-falante chamava-se "Serviço de Alto-falante Bandeirantes" . Certa noite estava ao microfone o Sr. Dito Senfim, baixando o pau nos concorrentes, que incomodados e donos da situação:
mandaram chamar o Sr. José Marques da Silva, para que cortasse a energia do prédio, a mando do Sr. Nascimento Sátiro da Silva, secretário da prefeitura. O Zé Marques imediatamente cumpriu aquela ordem, talvez até com algum prazer. Sabe como é política..., Então o Zé subiu no poste com um alicate e cortou os fios que conduziam energia elétrica para o sobradão, mergulhando o edifício e o estúdio na mais negra escuridão. Agora você pode imaginar o que aconteceu: foram só gritarias e xingação e as palavras do mais baixos calão partindo de todas as direções para todo lado. O povo que ouvia o som com o acalorado discurso, correu para ver o motivo do corte brusco da fala; vieram de vários locais e encontraram-se na praça em frente a igreja matriz, não muito longe do sobradão dos Lima, local da confusão. O Sr. Feio ( no tempo em que ele tinha as duas pernas, depois num baile na Barra do Turvo o anfitrião anrrancou-lhe uma das pernas com um tiro de espingarda) ele e o Jucão meio alcoolizados gritavam de um lado:-- Viva os Descio! E de lá respondiam:-- Viva os Santos! E desafiavam os bebuns a repetir se fossem homem, O Lico de Nhá Guilhermina, muito sacana e o Bernardinho (deficiente quase não tinha pernas, irmão da Sidinéia também muito gozador e malvado), para ver o circo pegar fogo, pagavam mais pinga aos bebuns para que continuassem a gritar:-- Viva o Celso Descio! Até que os eleitores dos Santos resolveram bater nos pingaidas, foi ai que o Wagner Cirino comprou a briga. No meio da bagunça o Benjamin dos Santos sacou um revolver e foi empurrando para trás, o Wagner cutucando, com o cano do revolver no peito até a beira do aterro da praça, onde o carcereiro por destração, sem olhar para trás, acabou caindo e o Benjamim acabou sem a arma, não se sabe como, depois houve pouca conversa e discussão, porque a poeira levantou em uma pancadaria monumental, a turma dos Santos e Descio, se misturaram num rolo, onde sopapos, socos, pontapés, cacetadas, pedradas, palmitadas, mordidas tomaram conta daquela, que foi a maior briga de rua, na política iporanguense de todos os tempos. A praça foi transformada em um verdadeiro e infernal campo de batalha, por sorte não houve mortes, chegou naquela hora o halterofilista renomado, professor Saulo e arrancou, foi arrancando os brigões e jogando para fora da briga, mas ainda assim existiram muitos feridos a pedradas, mordidas e palmitadas. Estavam lá naquele dia os palmiteiros Mario do Antão e o Isidoro, o Sebastião Santiago o Nelson Andrade e o Nestor (os três da Serra), o Lourenço Nunes (diziam que no exército ele foi muito bem preparado para combater na segunda guerra, era rápido como um felino e batia mais do que liquidificador), Benjamim dos Santos, O Wagner, o Gico e o Sargento Cirino, o Pedrico, o Niquinho, o Aristides Lima, um carcereiro morenão , e outros. Estavam lá também e dizem que só olhavam: o Manduca, o João Sembleia, o Alcino, o Deco ainda menino, o Pedro Corrêa e muitos outros. O soldado Trajano, miudinho e franzino falou para o Jucão: --Grite de novo se for homem e o Jucão respondeu:-- Aqui não tem ninguém prá meter a cara com os nossos! A resposta do soldadinho foi um tapa na cara do Jucão. No rolo o Lourenço perdeu até a dentadura.
As brigas entre Santos e Descio, foi sempre muito séria, mas os personagens que mais se destacaram, ou foram mais ameaçados eram: O Almerindo Betim e o Sr. Pedro Caetano dos Santos. O Almerindo era muito ousado e impetuoso. Em sua passagem pela câmara e pela política em um dado momento, em uma questão, contra os Descio, que envolvia ele e o Perciliano, ambos tiveram que fugir da cidade embalados como mercadoria para não serem mortos, o Almerindo embalado no fundo de uma canoa com mercadoria para Iguape e o Perciliano, muito magrinho e franzino, mas que quando tomava umas cagebrinas ficava valente e dizia que era paranaense e coisa e tal, e tal e coisa, ele também teve que ser embalado como mercadoria e colocado no fundo do sexto de um burro de uma tropa que subia a serra. Ambos tiveram que ficar sumidos por uns tempos até baixar o pó da rusga. Em outra ocasião O Bento Chato que era cunhado e caixeiro da loja do Fequinho entrou na câmara que era na rua Funda, levando nas mãos um caibro pesado de peroba, para liquidar o Almerindo, porém quando ele chegou na frente da mesa para desferir o golpe na vítima, que era o Almerindo, que imediatamente abriu a gaveta e sacou o parabelo (revólver) e apontou para o Bento que recuou. Posteriormente o Almerindo pediu a prisão do agressor pela tentativa e invasão da casa de leis. Uma ocasião o Renato, resolveu que por brigas políticas iria matar o Almerindo Betim, armou-se de um punhal que possuia e ficou aguardando, escondido na esquina do sobrado dos Lima na esquina da rua Pedro Silva com a Benjamim Constant, onde a vítima custumava todas as noites sempre no mesmo horário, porém na hora que o Almerindo estava para passar, chegou o Jeremias de Oliveira Franco, que conversando com o Renato soube do plano e conseguiu demove-lo de tal idéia, então o Renato em um momento de lucidez desistiu do crime, e o Almerindo salvou-se mais uma vez. Depois disto ainda pertenceu ao primeiro escalão do governo do estado, ocupando entre outros, o cargo de Diretor do DETRAN em São Paulo. Almerindo Betim, sofreu um grave acidente na via Anhanguera quando viajava para Campinas, com seu motorista, em uma campanha para o Sr. Carvalho Pinto, estava fazendo o que mais gostava, que era política. Porém, desta vez Almerindo, não conseguiu diblar a morte.
Já o Sr. Pedro Caetano dos Santos sofreu um atentado a bomba. Dizem que em certa ocasião o Vergílio Looze (dos Descio), que era afilhado do Sr. Pedro Caetano dos Santos, foi escalado para jogar uma banana de dinamite dentro da casa do seu padrinho, porém na hora de arremessar o artefato, veio-lhe um instante de lucidez e conciência, e ele acabou atirando a bomba do lado de fora da janela, poupando as pessoas que se encontravam dentro da residência, mas mesmo assim causando grande pânico. Em outro momento, havia um plano para eliminar o Sr. Pedro Caetano dos Santos, estava escalado o Nelson Andrade do bairro Serra para executar o serviço de dentro da loja do Fequinho, Ali no largo de N. S. do Rosário dos homens pretos esquina com a rua Funda, que era quase em frente a casa do Pedro Caetano, na mesma praça, tudo estava previamente combinado, até a hora da entrada do alvo, quando um tiro seria disparado para liquidar a vítima. Pedro Caetano chegou tudo como no plano, quando o pistoleiro levantou a arma na direção da casa para acertar o político, o Sr. Fequinho (Rafael Descio) em um momento de lucidez, arrancou a arma das mãos do Nelson, e salvou a vida do Pedro Caetano dos Santos e evitou o crime. Sobre o Almerindo Betim as crianças diziam na escola que tudo só começou por causa de uma rapadura. Na verdade o que ocorreu, é de que antes que tudo isto aconteceu, o Almerindo, era casado com a Paulina filha natural do Sr. Celso Descio, po isso estava no grupo que pertencia aos Descio, porém os fiscais da prefeitura foram ao porto do Ribeirão e embargaram uma canoa com uma carga de rapadura do Almerindo que seguia para Xiririca (Eldorado) e ele ficou furioso. O prefeito era o Fequinho (Rafael Descio), desta hora em diante o Almerindo virou para o lado dos Santos, deixou a canoa de carga e foi para São Paulo conversar com o deputado Diógenes Ribeiro de Lima e o governador Adhemar de Barros, na semana seguinte chegou com dois ofícios do interventor: um para ele Almerindo, assumir a presidência da Câmara e outro para o Sr. Pedro Caetano dos Santos assumir a prefeitura. Houve uma grande festa por parte dos simpatizantes dos Santos, foram queimados uma quantidade muito grande de fogos, que o céu ficou escuro de fumaça, quase como se fosse noite.
Um pouco antes daquela eleição tivemos um grande comício eleitoral ao lado da igreja de São Benedito, no palanque era aguardada a presença do Adhemar, que não compareceu naquele dia e também nunca mais apareceu na cidade. O Adhemar venceu aquela eleição em Iporanga com larga vantagem de votos, mas foi derrotado para governador no restante do estado.
Em 1954 a estrada de rodagem Iporanga-Barra do Turvo, estava para ser terminada, embora em condições precárias para uso. O primeiro viajante dirijindo um carro a chegar na Barra, foi o ousado e destemido, padre Arnaldo da Costa Caiaffa, vigário da paróquia naquela época. O pároco chegou até lá ao volante do seu bravo Jeep Willys, ano 1951 igual aos utilizados na Guerra Mundial, terminada a algum tempo. Quatro companheiros ajudaram com pás e picaretas nos trechos mais complicados em que a estrada ainda não estava pronta.

Haltereofilista renomado professor Saulo.

Naquele ano, dentre os professores que trabalharam no grupo escolar local, dois destacaram-se por seu trabalho entre nós: foram o professores Saulo de Almeida e o Ageu Alves de Araujo. O professor Saulo, além de católico, era também muito amigo do padre Caiaffa, além do mais, era também muito patriota, amigo do povo, grande educador, madrugador e halterofilista renomado.
Assim encerrou-se 1954, que marcou um dos momentos mais agitados na política entre as duas correntes políticas, no município de Iporanga. Turbulências que não abalaram, nem tiraram o brilho das tradicionais festas, que aconteceram no final daquele ano.



1955


O ano de 1955, começou com uma forte agitação política, notadamente logo após as festas e um pouco antes do carnaval. O Reinado de Momo esteve muito prejudicado pelas intrigas políticas. Os candidatos naquele ano, no município, foram foram três: Benjamim dos Santos Lisboa, que era bem cotado e apoiado pelos Santos e pelo prefeito Francisco de Paula Souza (Chico Cardoso) e também pelo Sr. Odorico Maciel da Silva, homem muito religioso e um dos mais fortes comerciantes da cidade.
Do outro lado estava como candidato o ex-prefeito Celso Descio, apoiado pelos Descio, pela família Nunes e outros amigos. Um terceiro candidato independente surgiu: era o Sr. Benedito de Andrade Resende (Senfim), que era apoiado pelo P.S.P. do Dr. Adhemar de Barros.
No ano de 1955, a plantação de café do Sr. Luiz Nestlhener no Betari começou a produzir muito café e o Sr. Luiz resolveu aumentar seu cafezal para dez mil pés e parecia muito feliz com a sua cafeicultura. Chegavam também na cidade vários colonos do vindos do Paraná, motivados pela grande geada que prejudicou muito a lavoura naquele estado no ano de 1954.
Em 1955 já havia falecido o jovem Olivio, sinistrado por um disparo acidental da espingarda do seu irmão Vicente dos Santos (Nenê), durante uma caçada de veados, no bairro do Lageado. A morte do jovem enlutou a família e a população, que amavam aquele bom rapaz, que era muito amigo de todos. Morreu também o Áureo Looze, o Julio de Oliveira Franco (Lico) de Nhá Guilhermina, rapaz muito brincalhão e criativo nas suas armações, além de ser amigo de todos nós e simpatizante dos Descio.No mês de março sofremos muito com a lamentável perda do nosso oficial do cartório local e que também era muito amigo da nossa famĺia, o Sr. José dos Santos Lisboa, que morreu escrevendo no seu cartório a certidão de nascimento do Laurentino Henriques Corrêa (Loro) que era maior e pretendia viajar para se empregar fora da cidade. O luto foi geral, pois além do servidor respeitável, foi também um grande conselheiro e amigo do povo.
Naquela época nossos engenhos de rapadura já estavam se acabando, as terras cultivadas deram seu lugar para a criação do gado era o êxodo rural chegando ao nosso município, mas ainda havia a pinga “Palmeira” fabricada em nosso bairro Parado por Sr. Odorico Maciel da Silva.
As aguardentes “Serra de Iporanga”, no bairro Serra dos Motta, de propriedade do Sr. Teodoro Konezuk (Teodoroque) e a pinga “Canta Galo” do Sr. Otavio Mendes Junior (Tavico), deixavam de ir para as prateleiras de nossos bares, mas ainda existiam por aqui algumas fábricas de pinga boas. O Sr. José Rodrigues Ramos também já ameaçava parar de fabricar a pinga “Rainha de Iporanga” no Bairro das Bicas, a fábrica de beneficiar arroz de propriedade do Sr. Estanislau dos Santos Franco fechava naquele ano suas atividades. As músicas mais tocadas por aqui no ano de 1955, principalmente no serviço alto-falante eram: a valsa “Aurora”, “Saudades de Iguape”, “Coração de luto” com Teixeirinha, “Fim do baile” com Tonico e Tinoco entre outras.
As festa de julho ainda foram bonitas, embora nós já notássemos um pouco de decadência. Chegando 7 de setembro ainda houve um grande festa cívica no grupo escolar de Iporanga, sob a direção do professor Saulo de Almeida, que ainda estava em Iporanga.
Na eleição de 3 de outubro foi eleito o Sr. Celso Descio pela segunda vez, como prefeito municipal.
O Sr. Benjamim dos Santos Lisboa, que tinha tudo para ganhar aquela eleição, acabou perdendo, talvez por causa daquela briga de rua, em que ele estava envolvido. A eleição para Presidente da República, vencida pelo Dr. Juscelino Kubitschek de Oliveira,não comentei nestas memórias, uma vez que nada influiu em nosso cotidiano iporanguense.
Assim terminava para nós o ano de 1955, com uma grande festa de fim de ano, com o Sr. Benedito de Andrade Resende como festeiro. Na minha opinião, aquela festa de Chegada da Santa foi a mais bonita que já vi, além da barca toda enfeitada teve mais cinco pequenas barcas e mais de duas dúzias de canoas em procissão pelo rio, mas a banda de música naquele ano não entrou na balsa, pois os músicas estavam em greve (O Senfim instalou som com alto-falante na Barca). Estes foram os principais fatos ocorridos entre nós no ano de 1955.




1956


No mês de janeiro deste ano tivemos menor enchente do que as dos anos anteriores. O primeiro grande acontecimento foi a posse no dia 31 de janeiro, do Sr. Celso Descio novamente na prefeitura, em seu segundo mandato como prefeito eleito. Também chegaram em Iporanga mais colonos do Paraná, fugindo das grandes geadas, para plantar café. Por outro lado, muitos de nossos sitiantes deixaram suas terras na zona rural, para ir a procura de emprego nas grandes cidades, aumentando o êxodo rural. Muitos sitiantes, as vezes abandonavam suas propriedade, sem vende-las, outros vendiam seus sítios por qualquer coisa e mudavam-se para o núcleo urbano do município.

Dom Idílio José Soares bispo da diocese de Santos de 1943 a 1966.

1956 também foi ano das Santas Missões, com os padres capuchinho visitando as comunidades rurais do município. Naquela época visitou a cidade o bispo Dom Walmor Batout, que era auxiliar de Dom Idílio José Soares, que por estar muito velho e cansado, daquela vez não visitou Iporanga.
As emissoras Tupi de São Paulo e a 9 de Julho, transmitiam o terço todos os dias às 6 horas da tarde na palavra de Dom Agnelo Rossi, arcebispo de São Paulo.
As músicas que marcaram época naquele ano foram: "Recordar é viver", "Boneca Cobiçada" e músicas do repertório do Serviço de Alto-falante Bandeirantes, tendo no microfone o locutor Benedito de Andrade Resende (Senfim).
A população esperava muito do prefeito Celso Descio no seu segundo mandato, mas talvez por ele já estar em idade avançada, pouco ou nada fez por Iporanga. Deixaram de existir nossos grandes canaviais, que margeavam os rios. o êxodo rural continuou: antigos e outrora populosos bairros, deixaram de existir, foram abandonados ficando para trás casas transformadas em cocheiras e muita tristeza e melancolia. Do ano de 1956, poucas memórias restaram, a não ser a da pressa de que ele passasse logo para chegar a um bom 1957, cheios de esperança e de dias melhores.



1957



No inicio de 1957, não houve grandes enchentes no rio Ribeira nem no ribeirão Iporanga. Os belos carnavais tinham ficado no passado, as músicas ouvidas eram as dos anos de ouro da MPB. As emissoras de rádio local de maior audiência eram: Tupi de São Paulo, Bandeirantes e Nacional de São Paulo, etc. Nós ouvíamos muito o programa da tarde na Tupi, eram músicas com o Saracura, Zé do Mato e Nhá Serena, ouvia-se muito também o trio formado por: Luizinho, Limeeira e Zezinha com músicas sertanejas. As mulheres, como era de se prever ouviam as radionovelas da época, a líder de audiência era "O fantasma do Abaeté" na rádio Tupi de São Paulo. Os sucessos musicais naquele ano foram: "Capelinha branca" e "Encosta a cabecinha no meu ombro" e outras. Havia também o grande sucesso da rádio bandeirantes à noite que era a dupla Tonico e Tinoco e na Tupi de São Paulo a dupla Vieira e Vieirinha.
No segundo semestre do ano chegou na cidade um velho trator Caterpillar do D.E.R., para dar continuidade na obra da rodovia, que liga Iporanga ao Banhado Grande. A máquina começou a fazer um trabalho maravilhoso no principio, porém em pouco tempo quebrou. Os mecânicos desmontaram a e ela assim permaneceu, por mais de seis meses, na entrada da cidade, aguardando as peças que jamais vieram. Aquele trator nunca mais trabalhou na estrada e também em lugar nenhum. Passado algum tempo ele foi recolhido para a garagem do D.E.R., de Capão Bonito (A conclusão é que esta obra de relevante importância para Iporanga e outros municípios parou, mais uma vez, sem ser concluída. Hoje as dificuldades ambientais criadas para se conseguir fazer os míseros dois quilómetros que faltam, ultrapassam as raias do absurdo. Levando-se em conta o paradoxo de que o governo, quando quer, consegue licença ambiental para construir represa no rio madeira e alagar centenas de quilómetros de florestas primárias na Amazonia e sem nenhum remorso. Imagina-se e lamentamos, que desta forma uma estrada de extrema importância para a infra-estrutura do Turismo e do Desenvolvimento da Região, ficará abandonada e para sempre, se não houver uma luz para iluminar a mente e uma força para atuar na vontade desta gente, que inclui a mata e mata o excluído, que acabará enterrado-o junto com o sonho de ter ele visto em vida, a tal estrada concluída).
Em 1957 o velho motor que gerava energia para a cidade foi aposentado e substituído por outro. Desta vez era um motor alemão novo, doado pelo governador Jânio Quadros, marca M.W.M., para o qual foi construído um abrigo novo, maior, ao lado do antigo, que existia para o motor anterior. O motor velho foi colocado em um caminhão e levado não se sabe para onde. Neste ano o responsável energia e que operava o motor era o João Pinto, filho do Sr. Vicente Pinto.
Até o ano de 1957 quase todas as mulheres do municipio davam a luz em suas próprias casas, não haviam médicos, o serviço era feito por boas parteiras, que muitas vezes ficavam até uma semana na casa da paciente, para ter certeza dde que tudo estaria bem. Dificilmente uma mulher morria por problemas no parto. As melhores parteiras de Iporanga na época eram: Nha Balbina, Nhá Maria Moura de Lima(Nhá Mariquinha dos Macacos), Nhá Júlia André, Nhá Júlia de Nhó Dito Padre, Maria Sabão e outras. Uma bela festa de fim de ano encerrou com chave de ouro 1957.



Maria Corrêa da Silva (Maria Marques) e a parteira Maria Sabão, no tempo em que as pessoas nasciam e morriam em Iporanga. Hoje em dia, pessoas geradas em Iporanga, vão à Pariquera para nascer e voltam para viver. Depois de viver, vão à Pariquera para morrer e voltam para em Iporanga descansar, para um dia ressuscitar.









1958


O ano de 1958, foi quase tão bom como o anterior, mas logo após as festas, esquentou a política, por tratar-se de ser o ano para eleição de governos estaduais. Naquele ano nossos rios encheram além das medidas. Depois de uma grande tempestade de granizo no dia 18 de janeiro, as águas cobriram as pontas das pedras da barra do ribeirão Iporanga.
O povo ainda se recuperava de uns restos da gripe asiática, que maltratou a população principalmente as da área rural, que tinham menos recursos. Chegavam na cidade aquele ano os primeiros rádios transistorizados (mais ou menos portáteis), que funcionavam com pilhas de lanternas. As marcas de aparelhos mais conhecidas eram: Hitachi, Espica, Phillips, Philco, Sharp e outras.
Além das músicas sertanejas , que ouvíamos muito no rádio, gostávamos também de MPB, tangos, boléros, etc. Ouviam-se cantores como: Vicente Celestino, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves, Caubi Peixoto, Agnaldo Raiol, Angela maria, Elza Soares, Emilinha Borba, Carmem Costa, etc. No rádio os maiores sucessos aquele ano eram: "Cadê o jarro que eu plantei a flor" e"Peneira, peneirinha quero ver peneirar" com o cantor Luis Gonzaga.
Muitas famílias que vieram aqui para plantar café, já começavam a desistir vendendo novamente seus terrenos no vale do ribeirão Iporanga para ir embora. Em 1958, o governador do estado Sr. Jânio Quadros, criava o P.E.T.A.R. (Parque Estadual e Turístico do Alto Ribeira) que diziam ser para proteger nossos rios, florestas e cavernas.
Do parque 70% ficava no nosso município e o restante 30%, no vizinho município de Apiaí. A criação desse parque até hoje não trouxe nenhum benefício para Iporanga, uma vez que quase todos os turistas que visitavam nossos grutas, em nada favorecem a Iporanga. Também os chefes políticos do nosso município não demostraram interesse nesse sentido.
Os títulos de eleitores mais antigos, com o símbolo da república foram substítuidos por outros mais modernos com fotografias do eleitor.
Também daquele ano em diante, ficaram proibidos os viveiros eleitorais. Naquela bonita tarde de inverno do dia 29 de junho, na narração de Edson Leite, locutor esportivo da rádio Bandeirantes, diretamente da Suécia, o Brasil sagrou-se pela primeira vez vencedor da Copa do Mundo de Futebol. Era um domingo muito alegre e festivo, com muito foguetório em Iporanga.
No último dia de festa de julho tivemos aquela tragédia com a morte da jovem moça Ana, filha do João Ricardo, a moça morreu afogada ao cair da canoa em que remava sobre o rio Ribeira, ali bem em frente à rua 15 de novembro. Nosso amigo Gentil de Oliveira Santos bem que tentou salva-la, indo ao encontro com sua canoa, mas quando a jovem foi retirada das águas já estava morta.
Logo depois das festas de julho nosso povo já se preparava para as eleições. No dia 28 de julho, logo depois das festas pude presenciar uma das maiores disputas entre jogadores de baralho de nossa cidade, o torneio realizou-se na casa do Nhô Athos dos Santos, começamdo aquele jogo dramático ao escurecer e continuou madrugada afora até quase amanhecer do dia 29 de julho de 1958. Foi uma parada muito barulhento, onde também corria cerveja, além de bandejadas de café.
Os jogadores mais fanáticos que já vi, eram eles: José Rodrigues de Queiroz, (José Feio), Nhô Athos dos Santos, seus filho Athinhos dos Santos, Nascimento Sátiro da Silva, o alemão Sr.
Reinhold Wendell e o Sr. Ernesto dos Santos( Nhô Ernestão), irmão do Sr. Athos dos Santos.
Naquele ano os candidatos a governador do estado de São Paulo, para as eleições que seriam realizadas naquele 3 de outubro foram: o professor Carvalho Pinto, apoiado pelo governador Jânio Quadros, o Sr. Adhemar de Barros do P.S.P., que voltou a perder, o Sr. Auro de Moura Andrade e como não poderia deixar de ser, o Sr. Wladimir de Toledo Piza.
Depois de realizar aquela eleição de 3 de outubro, o vencedor foi o professor Carvalho Pinto, que foi eleitor governador do estado de São Paulo. Em 1958, ouvia-se muito nas rádios de São Paulo a música "Encosta a cabecinha no ombro" com a inesquecível dupla Cascatinha e Nhana,
Com a derrota do Adhemar para governador do estado o Sr. Benedito de Andrade Resende (Senfim), que naquela ocasião era delegado de polícia local prometeu ir embora daqui com muita mágoa com os eleitores e acabou indo mesmo.
Naquele ano Iporanga tinha uma bem montada farmácia, com todos os medicamentos necessários para a boa saúde, era a farmácia do Sr. José Carlos, um cidadão da cidade de Ourinhos, que morou em Iporanga.

Toninho de Nhô Rodolfo e irmão do Pedrico, e Isidro,
Isidora de Andrade Resende, que é pai do João Dora.

No dia 9 de outubro, numa tarde linda, pude presenciar um momento inesquecível, dois rapazes, Joaquim Cardoso dos Santos e Antonio Onofre, filho do Nhô Rodolfo foram até a casa da dona Maria Adriana, zeladora da igreja, buscar a chave da igreja para fazer soar os sinos da torre da matriz, por que naquela tarde morria o saudoso Papa Pio XII e aqueles dois rapazes, ainda jovens, foram tocar, como de costume, os sinos da nossa igreja. Foi a última vez que vi tocar tão bem tocado os três maravilhosos sinos da igreja matriz pela dupla Antonio Onofre e Joaquim Cardoso dos Santos, filho do Juvenal João dos Santos, ex-prefeito de Iporanga. Assim foi para nós o belo ano de 1958 em nosso município. Após as festas de fim de ano, entramos em 1959, com renovadas esperanças.


1959

No começo de 1959 choveu muito por aqui enchendo nosso rios e cairam várias barreiras na estrada Iporanga-Apiaí. Naquele mesmo ano o nosso padeiro e amigo Ernesto dos Santos Junior (Nestico) fechava as portas de sua padaria aqui na praça da matriz, despedindo da população, ele foi embora para a cidade de Barretos.
A mina de mármore do municío de Iporanga, que ficava perto do rio Fria. Daquele loca começavam a trazer aquelas grandes pedras quadradas, que de caminhão passava por Iporanga rumo a Curitiba. Quem transportava o mármore era o Sr. José Saturnino dos Santos, cidadão de Iporanga, residente na Barra do Turvo. A mina de chumbo do bairro Lageado deixava de funcionar, Só a mina de chumbo do bairro Furnas, permaneceu em franca produção. Os fundadores da mina de mármore foram: O engenheiro Aderbal, o Sr. Colavino e o Sr. Jacobino que era gordão e muito alegre.
Naquele ano faziam muito sucesso em nossa cidade as músicas do cantor Nelson Gonçalves, entre elas "Deusa do asfalto" e também com Caubi Peixoto "Conceição".
No começo de 1959, chegava a Iporanga para fixar residência o Sr. Aníbal Ferreira de Souza, que na década de 30 foi professor na cidade e era casado com Dona Elena, irmã do sr. Pedro Caetano dos Santos. Por ter um forte vínculo com os Santos e por ser ano eleitoral, o ano de 1959, o professor resolveu candidatar-se a prefeito de Iporanga.
Com a inauguração da Casa da Agricultura da cidade, localizada na antiga praça da Bandeira, que depois passou a ser praça Honório Corrêa.

Sr.Fermino Batista

A Casa da Lavoura como era chamada na época era obra do professor Carvalho Pinto, para trabalhar na nova repartição chegou o primeiro agrônomo e um dos primeiros descendentes de japonês em Iporanga: o Sr. Hideo Emura. Algumas famílias japonesas começaram a colher os primeiros tomates plantados no vale do ribeirão Iporanga. Naquele ano plantaram tomates por aqui o Sr. Oswaldo da Silva Pereira e o Sr. Fermino Batista.
No primeiro semestre de 1959 faleceu o noso amigo Célio Oliveira Santos na cidade de Santa Rita do Passa Quatro, onde estava internado. A família e nós ficamos muito tristes com o ocorrido.

Eduardo Pedro de Lima, candidato do prefeito Celso Descio.


Depois das festas de julho a população já se preparava para as eleições de prefeito e vereadores . Sr. Aníbal era um forte candidato apoiado pelo cunhado Sr. Pedro Caetano dos Santos e família e também os seus companheiros. O candidato adversário era o Sr. Eduardo Pedro de Lima, Sobrinho do prefeito Celso Descio, que o apoiou e também apoiado pelo Sr. Benedito de Andrade Resende (Senfim).
A eleição realizou-se no dia 3 de outubro, sendo eleito o professor Aníbal, que de muito contente fez um baile até amanhecer no salão do Hotel Estrela na rua Pedro Silva. Na noite da vitória, no baile, os vencedores ou não, homens e mulheres cantaram e dançaram muito a música " O que tem a rosa tão desfolhada, foi o sereno da madrugada" até o dia raiar.
Em 1959, por ordem ou intermédio do vereador Sr. Augusto da Silva Pereira (Gusto ou Augustinho), construi-se a ponte de cabos de aço sobre a passagem do ribeirão Iporanga, para que os habitantes daquelas imediações pudessem passar sem ter que ser por dentro do rio.
Com a derrota naquela eleição, uma parte da família Descio que ainda se encontrava na cidade, ficaram descontentes com o resultado da eleição, onde o Sr. Eduardo Pedro de Lima, candidato do Sr. Celso Descio, foi superado pelo adversário. Os Descio deixaram a cidade e só raras vezes apareceram, exceto o Sr. Celso Descio que voltou para Iporanga e permaneceu em resposta ao clamor do seu coração, que já não lhe pertência, do qual a sua terra era dono legítimo, e para quem o entregou...


1960


No dia 31 de janeiro, tomou posse na prefeitura o professor Aníbal Ferreira de Sousa, durante seus quatro anos de madato ele residiu na histórica casa paroquial, ao lado da casinha pequena do padre. Em 1960 o professor Aníbal ganhou uma caminhonete Ford F100, cor amarela, do governador, para a prefeitura de Iporanga. Também o posto de saúde ganhou sua primeira ambulância, uma perua Kombi, também doada pelo governador Carvalho Pinto. O prefeito construiu uma serraria aqui na cidade, sob a direção do Sr. Leopoldo, que era mestre naquele serviço, construiu, também, uma olaria para fabricar tijolos e fazer casas para a prefeitura.
A prefeitura naquele ano, fez também, uma caixa d'água nova, um pouco maior, para servir a população durante aquele ano. Já havia iniciada a construção da estrada de rodagem que ligaria Iporanga a Xiririca (Eldorado Paulista).
O Sr. Aníbal prometeu trazer fazendeiro de fora para criar o bicho da seda aqui e plantar amoreiras, para dar emprego para o nossa população, mas deixou de cumprir a promessa, ele apenas trouxe uma quantia de bicho da seda, que por não ter o que comer, morreram de fome abandonados naquele lugar, onde é hoje a nova prefeitura.

Jorge Japonês, esse sabe tudo de palmito.

No ano de 1960, Iporanga contava com duas indústrias de palmitos em conserva, havia uma fábrica de palmito no fim da rua Carlos Nunes, de propriedades do Sr. Francisco Antonio Venâncio, cidadão português, residente aqui.


Sr. Estanislau Franco (Dr.Franco).

A outra indústria de conserva de palmito era de propriedade do Sr. Estanislau dos Santos Franco (Dr. Franco), na chácara dele, sob a direção admistrativa do jovem nissei Jorge Kogaki, que mais tarde seria meu cunhado.


À esquerda, na foto, Sr.Xavier, homem religioso, migrante, era muito hábil no trabalho com couro. Veio para Iporanga com o Dr. Franco, na foto está numa conversa descontraída com Sr.Tavico(Otávio Mendes).

O professor Aníbal foi o festeiro no fim de ano de 1960, quando chegava ao fim o saudoso serviço de alto falante, a voz de Iporanga, tocando às 10 horas da noite do dia31 de dezembro a bela canção do marinheiro “ Cisne Branco”. No fim de 1960, as músicas que mais tocavam nas emissoras de rádio e que ficaram em nossa memória, foram: com Vicente Celestino, “Noite cheia de estrela” e com Tito Madi, “Menina moça”, entre outras. Assim terminava o ano de 1960 em Iporanga.



1961



O ano de 1961, logo depois das festas, no mês de janeiro, um mês de muitas chuvas, rios cheios, houve muitos desbarrancamentos no Morro da Coruja. A inflação já era alta, com o povo sempre reclamando dos preços. Os viajantes já não eram muitos amigos dos comerciantes da cidade, pondo sempre duplicatas de dividas dos devedores da cidade no banco de Apiai ou no banco de Itapeva, para cobrança.Os devedores tinham que viajar para aquelas cidades para saudar o débito e regularizar a situação. Até meu pai teve seguir os mesmos procedimentos.
O êxodo rural atingiu maiores proporções, muitos foram embora para as grandes cidades em busca de emprego e melhores horizontes. Os jovens deixavam seus pais, já velhos, doentes e tristes, no sítio onde nasceram e se criaram e partiam para as metrópoles, as vezes jamais voltavam deixando os velhos e familiares abandonados à própria sorte e aguardando a morte.
Os sitiantes estavam deixando de plantar, geralmente por falta de apoio ou de uma política pública direcionada para aquela situação.Muitos já desmotivados e com poucas esperanças diminuíram o plantio de cana, arroz, milho, feijão e raramente faziam rapadura.
Governava o país o Sr. Jânio da Silva Quadros, que havia tomado posse em 31 de janeiro. O Brasil vivia um momento de muito tumulto, com muitas greves e essa situação caótica produzia reflexos também para Iporanga que sofria muito naquele momento. Só a renúncia do Sr. Jânio Quadros em 23 de agosto da presidência da república permitiu que a população respirasse aliviada. Diziam que Iporanga iria melhorar, só que essa melhora não se concretizou até hoje. depois da confusão política em Brasília, o vice presidente João Goulart, tomou posse. Mas, para Iporanga, sofrida e abandonada, tudo aquilo de nada adiantou. O êxodo continuou em busca de emprego e melhores dias.
As festas do final de ano foi uma das mais bonitas ja realizadas até aquela data, apesar da grande quantidade de chuva despejada sobre a cidade. O delúvio da madrugada de 31 de dezembro deu um enorme trabalho para o nosso amigo Gentil que era o festeiro. Naquela tarde do último dia do ano deixou este mundo a alma do nosso amigo e compadre do meu pai, o José Moreira. Assim foi o chuvoso ano de 1961.




1962


O ano de 1962, por ser um ano eleitoral também foi bastante tumultuado. A prefeitura recebeu do governador Carvalho Pinto um caminhão da marca Chevrolet-Brasil a gasolina, para fazer os transportes e serviços municipais. Chegou também na prefeitura um trator de esteira, para consertar as estradas municipais e abrir outras. Era um trator cor azul, importado da Alemanha Oriental, trocado com café, ainda no governo do Juscelino. Aquele trator estava sempre quebrado, nunca trabalhou em nossas estradas e finalmente acabou transformando-se em sucata.
Carlitos Nunes e Euclides da Silva Pereira (Cridinho).

Foi ano da Copa do Mundo e em todas as emissoras de rádio, o que mais se ouvio era comentários em que o assunto era futebol. Quando ouviamos os últimos gols do Brasil, naquela tarde de domingo, transmitido diretamente do Chile, nós estávamos na casa do nosso amigo Renato da Silva Pereira e seu irmão Euclides da Silva Pereira , no final da rua Benjamim Constant. Era dia 17 de junho, quando nosso amigo Gentil de Oliveira Santos acidentava-se ao jogar um punhado de pólvora dentro da boca do velho morteiro da igreja, que ainda estava quente e com algumas fagulhas acesas do estouro produzido antes. O velho morteiro flambou a pólvora e lançou um jato de faíscas inflamadas que queimou os olhos do Gentil. Embora o Brasil tenha conquistado aquela Copa nossa alegria não foi completa em razão de nosso amigo Gentil ter sofrido aquele acidente durante a comemoração e depois a sua vista nunca mais ter uma completa recuperação.
Em 3 de outubro de 1962, houve a última eleição do Sr. Adhemar de Barros, para governador do Estado de São Paulo e daquela vez contrariando o histórico de Iporanga o Governador que saiu vencedor o Sr. Adhemar venceu também em Iporanga, para nossa alegria. O Adhemar como sempre foi apoiado pelo Sr. Benedito de Andrade Resende (Senfim), também nosso amigo. Os candidatos perdedores foram os seguintes: Jânio da Silva Quadros, candidato do P.S.B., candidato José Bonifácio Coutinho Nogueira e Vladimir de Toledo Piza. Fizeram uma grande festa na cidade, aquela era a última vez que o Sr. Adhemar fora eleito governador do estado, ele era muito amigo da nossa cidade.
A festa de Nossa Senhora do Livramento naquele ano foi talvez a mais bonito que a cidade já viu, ela teve à frente, como festeiro, o cidadão iporanguense Jeremias de Oliveira franco. Ele mandou fazer uma filmagem completa do evento por uma equipe profissional. O ano de 1962 terminou à meia noite com uma extraordinária queima de fogos e ótimas recordações.


1963


Foi um ano de muita esperança para o município que estava sempre a espera de dias melhores. Depois de um curto espaço de tempo do regime parlamentarista, realizou-se um plebiscito para mudança deste regime para o presidencialismo com voto sim ou não, onde venceu o presidencialismo.
O Sr. Jeremias de Oliveira Franco candidatou-se a prefeito de Iporanga, com promessas de muita coisa boa para a população. Os Descio já afastados da política apoiaram ao Sr. Jeremias como seu candidato. Outro forte candidato naquele ano foi o Sr. João Alves Cavalcanti, que chegou a Iporanga através do Dr. Franco, como referência, havia sido bom prefeito em Santana do Parnaíba, o Cavalcanti foi apoiado pelo governador Adhemar de Barros, que o considerava como grande amigo. Naquele ano candidatou-se também o Sr. Nascimento Sátiro da Silva, secretário da prefeditura no mandato do professor Aníbal. Na eleição realizada naquele 3 de outubro saiu vitorioso para prefeito do município o Sr. Jeremias, com maioria de votos nas urnas.
Embora o Sr. Jeremias tivesse ganho a eleição e comemorado muito a vitória, o Sr. Cavalcanti achou que houve fraude eleitoral, entrou com recurso na justiça conseguindo anular aquele pleito. Uma nova eleição foi marcada para ser realizada depois de três meses, porém nesta segunda disputa ganhou o Sr. Jeremias com uma vantagem ainda maior de votos. Houve grande reboliços, tumultos, alegria e comemorações por parte do Sr. Jeremias e seus companheiros. Ao contrário aconteceu do lado perdedor onde só ficou a lamentação as tristezas.
Ainda em 1963 o governador Adhemar de Barros criou a Companhia Vale do Ribeira, com a finalidade de abrir estradas somente nestas regiões, companhia do governo que mais tarde passou a chamar-se Sudelpa e que depois foi extinta.
A estrada Iporanga-Eldorado estava em um adiantado estágio de construção, tinha chegado ao bairro Jurumirim. A serraria da prefeitura montada no mandato do professor Aníbal fechou as portas.
No ano de 1963 houve uma briga entre o Dito Feio e o Valderino, no sitio do ribeirão na casa do Eduardo Feio, durante a luta entre os dois o dito pegou uma cangalha para atingir o adversário, errou o alvo e atingiu o avô de ambos, o centenário Sr.José Rodrigues de Queiroz (Zé Feio), que dormia. A cangalha feriu o velho que depois de ficar acamado alguns dias e já enfraquecido, não resistiu e nos deixou só a saudade de sua sabedoria e longas histórias.
Assim passou o ano 1963 cheio de política , mas sem faltar a tradicional festa de fim de ano.


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1964


Com a posse do novo prefeito do município, Iporanga dava um passo à frente, apesar da inflação estar muito elevada. O novo prefeito Sr. Jeremias de Oliveira Franco montou uma fábrica de blocos de calçamento, para calçar as principais ruas da cidade, por intermédio do Sr. Luis Nestlhener, ilustre cidadão que começou aqueles primeiros serviços. O Sr. Luis Nestlhener montou também o primeiro e pequeno posto de gasolina na cidade , posto este que durante quase 30 anos nada evoluiu.
O pároco da cidade em 1964, era o padre Geraldo Solano Soares. Em 1964 o Sr. Pedro Caetano dos Santos, já com muita idade deixou de tocar o velho órgão da igreja e assim, o coro da matriz perdeu muito do seu brilho.
Com a nova reforma da Igreja Católica, Iporanga passava a não mais receber as Santas Missões realizadas de quatro em quatro anos, também com o Concílio do Vaticano II, que queria e aprovava a missa em português, o padre Geraldo deixava de celebrar as missas em latim, tirando-nos a tradição e a beleza daquelas cerimônias religiosas.
O Sr. Pedro Caetano dos Santos já ia pouco a igreja e pouco saia de sua casa. As músicas que marcaram época para nós nos idos anos de 1964 foram: com Francisco Petrônio “Baile da saudade”, “Iracema” com os Demônios da Garoa e outras músicas.
31 de março, depois de todo aquele reboliço na área federal em Brasília caia o presidente João Goulart. Diziam que Iporanga ia ganhar muito com o novo governo, ficamos todos muito felizes.
A Cotesp, Companhia Telefônica de São Paulo, inaugurava na cidade o telefone para que Iporanga pudesse falar com o mundo. Foi, sem duvida, um grande melhoramento para nosso povo.
Naquele ano era demolido o velho cemitério, o que foi, na minha opinião, uma irreparável perda histórica para nossa cidade. Assim, com as festas costumeiras de fim de ano, é o que tinhamos a contar o que foi para nós o ano de 1964 em Iporanga



1965




Depois das festas e da Despedida da Santa no dia 2 de janeiro, a gente já não acreditava muito no futuro brilhante do nosso município, até eu que havia jurado de pés juntos que nunca sairia da minha terra, estava de malas prontas para deixar Iporanga a qualquer momento.
A gente tendo amor a terra, na nossa família, no nosso povo, não queria deixar nossos amigos, mas achava isso muito difícil. Assim nós já procurávamos os grandes centros a fim de arrumar emprego.
O padre Caiffa, nosso grande amigo e ex-pároco de Iporanga já havia morrido na cidade de Santos, nossos amigos sargento Círino, Benedito de Andrade Resende, Antonio Evaristo, Benedito Padre, José Mendes e outras pessoas já haviam ido embora para outras cidades.
Nossos sinos já pouco tocavam, para piorar, o sino menor havia trincado com uma martelada usada no lugar do badalo.
Com a chegada das rádios novelas e mais tarde com a chegada da televisão nossos santos terços, via sacras e novenas deixavam de existir, ou se ainda existe, acabou o brilho uma vez que nosso povo hoje já é menos devoto. O padre solano levou a imagem de madeira de N.S. da conceição para o museu de arte sacra em Santos ou São Paulo e por conta disto a linda novena de N.S. da Conceição em 29 de novembro deixou de ser feita e a geração atual nem sabe que ela existiu.
A grande perda ficou por conta da autonomia de Barra do Turvo que foi elevada a municípío. A população começou a mudar pouco a pouco os costumes, tradições e os hábitos alimentares.

A extinta A.L.A.-Assistência ao Litoral de Anchieta.

A.L.A.-Assistência ao Litoral de Anchieta, que durante 50 anos colaborou com a população, deixou de existir e para piorar acabou também a Irmandade S. Vicente de Paula.
A estrada Iporanga-Banhado Grande, sonho do meu pai: Sr. Honório Corrêa e de todos nós, ficou por terminar. Hoje, aquela rodovia, no trecho Morro do Chumbo o sinal da trilha dentro de um imenso matagal. Nosso cidadãos foram abandonado sítios e bairros, deixando para trás os lugares onde nasceram e se criaram, e que hoje estão transformados em taperas abandonadas e começando a ser ocupado por gente de fora para formação de grandes latifúndios, para minha maior tristeza e lamento.
Assim desta terra que é rica e preservada, inclusive Caboclos, o bairro onde nascemos junto com outros que lá viveram e criaram filhos antes de partir. Esta é a nossa triste realidade até o ano de 1965 quando deixei nossa cidade.